
A adaptação leva semanas. Num estudo com cães de abrigo, o hormônio do estresse medido no pelo estava mais alto durante a estadia no abrigo e já tinha baixado seis semanas depois da adoção. Nos primeiros dias, ajudam uma rotina previsível, um lugar sossegado para o animal se recolher e apresentações graduais a outros bichos.
Quanto tempo leva a adaptação
Não existe prazo fixo, mas há pistas. Pesquisadores da Universidade de Utrecht, na Holanda, mediram o cortisol acumulado no pelo de 52 cães em quatro momentos: na chegada ao abrigo, depois de seis semanas lá, seis semanas depois da adoção e seis meses depois da adoção. O nível mais alto apareceu no período de abrigo. Seis semanas após a adoção, ele já tinha caído, com diferença estatística em relação ao abrigo.
Isso não quer dizer que o cão fica "pronto" em seis semanas. Quer dizer que a mudança para uma casa tende a aliviar o estresse e que as primeiras semanas são o período de ajuste.
Você talvez já tenha ouvido falar da "regra dos 3-3-3": três dias para descomprimir, três semanas para aprender a rotina e três meses para se sentir em casa. A ideia circula muito entre protetores e ajuda a calibrar a expectativa, mas não encontramos estudo científico que a tenha testado. Cada animal tem o próprio ritmo.
Antes de buscar o animal
- Deixe potes, cama, coleira com identificação e, para gatos, caixa de areia e arranhador já no lugar.
- Confira telas, portões e vãos de muro.
- Combine com todos da casa as regras básicas: onde o animal pode subir, quem dá comida, a que horas sai o passeio.
- Tire o dia, ou pelo menos a tarde, para estar em casa quando ele chegar.
O primeiro dia
Vá direto da ONG para casa. Festa, visitas e passeio pelo bairro podem esperar.
Com cães, mostre onde ficam a água, a cama e o lugar de fazer as necessidades. Deixe que ele fareje a casa no próprio tempo e ofereça um canto tranquilo, longe da passagem. Leve-o ao lugar do xixi logo depois de comer e de acordar: nos primeiros dias, acidentes são comuns.
Com gatos, comece por um cômodo só. As diretrizes de ambiente felino da AAFP e da ISFM, entidades de medicina felina dos Estados Unidos e da Europa, recomendam dar ao gato um lugar seguro para se esconder e manter comida, água, caixa de areia, arranhador e área de descanso separados uns dos outros. Um gato escondido embaixo da cama no primeiro dia está se adaptando, e tirá-lo de lá à força atrapalha. Abra o resto da casa aos poucos, quando ele estiver comendo e usando a caixa com tranquilidade.
A rotina das primeiras semanas
Horários fixos de comida e de passeio dão ao animal uma forma de prever o dia. A mesma diretriz felina lista a interação "positiva, consistente e previsível" com as pessoas como um dos cinco pilares do bem-estar do gato, e o raciocínio vale para cães.
Algumas atitudes que ajudam:
- Deixe o animal vir até você. Carinho forçado, colo e abraço podem assustar quem ainda não confia.
- Treine curtas ausências desde cedo: saia por dez minutos, depois meia hora, antes do primeiro dia inteiro fora.
- Troque a ração aos poucos, misturando com a que ele comia na ONG.
- Anote o que ele come, quando faz as necessidades e o que o assusta. Isso ajuda na conversa com o veterinário e com a ONG.
Comportamentos que costumam aparecer
Um estudo acompanhou 61 cães adolescentes e adultos adotados de um abrigo em Auckland, na Nova Zelândia, entre uma semana e seis meses depois da adoção. Dos 57 cães com informação de comportamento, 40 (70%) tinham pelo menos um comportamento considerado problema pelos tutores. Os mais citados foram falta de modos (46%), destruição de objetos (30%) e energia excessiva (28%).
O mesmo estudo mostrou que a maioria dos tutores não se abalou: 44% não estavam nada preocupados e 43% estavam só um pouco preocupados. Os autores concluíram que apoio para ensinar os tutores a treinar os cães poderia aumentar a satisfação com a adoção. Se o comportamento incomodar, fale com a ONG antes de desistir: ela conhece o animal e pode orientar.
Apresentar a outros bichos
Faça devagar. Com gatos, o cheiro vem antes do encontro: troque mantas entre o recém-chegado e o morador, deixe cada um farejar o cheiro do outro e só depois permita que se vejam, de preferência por uma porta entreaberta ou uma tela. A diretriz da AAFP e da ISFM inclui o respeito ao olfato do gato entre os pilares do ambiente saudável.
Com cães, um primeiro encontro em território neutro, como a calçada, costuma ser mais fácil do que dentro de casa. Mantenha os dois na guia, deixe que se cheirem por pouco tempo e separe ao primeiro sinal de tensão. Nos primeiros dias, guarde brinquedos e ossos e sirva a comida em lugares separados, para evitar disputa.
A primeira consulta
Marque o veterinário para a primeira semana, mesmo que o animal pareça saudável. Leve o histórico entregue pela ONG. Na consulta, o veterinário revisa vacinas e vermífugo, examina o animal e diz quando fazer a castração, se ainda não foi feita. Os detalhes estão nos guias de vacinas e vermífugo e de castração.
Fontes
- van der Laan JE, Vinke CM, Arndt SS. Hair cortisol as an indicator of long-term stress responses in dogs housed in a shelter and after subsequent adoption. Scientific Reports, 2022. https://doi.org/10.1038/s41598-022-09140-w
- Ellis SL, Rodan I, Carney HC et al. AAFP and ISFM feline environmental needs guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2013. https://doi.org/10.1177/1098612X13477537
- Gates MC, Zito S, Thomas J, Dale A. Post-adoption problem behaviours in adolescent and adult dogs rehomed through a New Zealand animal shelter. Animals, 2018. https://doi.org/10.3390/ani8060093


